Capítulo Dois
Descobrir que Yuri não era tão sério quanto aparentava foi quase uma revelação divina para mim. Apesar de ser um cara tão reservado, nas suas poucas palavras podia esconder muito sarcasmo. Seu olhar atento e sorriso me provocava, como se ele me analisasse para ver se eu entendia mesmo o que ele falou. De um jeito mais sereno e discreto, sua personalidade parecia tão brincalhona com a do Fabinho. Era como se ele estivesse me instigando vê-lo de um jeito diferente da minha primeira impressão. E eu aceitei o desafio.
Desde então, decidi que precisava entender quem era esse mero estudante de filosofia. Na realidade, doutorando de filosofia. Perceber sua inteligência foi quase natural, ele não precisava de palavras difíceis. Nem falava de jeito arrogante ou prepotente. Gostava de frases curtas e de efeito, assim como eu citava filmes, séries e trechos de música para responder alguma pergunta. Era sutil e observador, de forma sagaz sempre tinha uma pergunta. Mas, encantadoramente, não se importava em pensar um pouco para responder a qualquer coisa. Era como se ele já soubesse o que queria saber de mim, mas ainda que soubesse o que dizer na sua vez refletia antes mais um pouco.
Então, enquanto Yuri mantinha sua rotina de sempre — cappuccino, mesa perto da janela, livro — eu aproveitava cada momento para puxar conversa. E ele nunca parecia incomodado, o que me encorajava ainda mais.
***
Naquele dia, a cafeteria estava cheia. Era como se todos tivessem decidido que o dia só começaria depois de uma xícara de café. O dia passava e eu só conseguia pensar que eu precisava urgentemente que chegasse o fim do meu expediente. Mal podia esperar chegar em casa, tomar um banho, deitar na minha cama… E então começar a estudar para minha prova de parasitologia às seis horas da tarde.
Eu estava atrás do balcão, enchendo o açucareiro de vidro, quando o vi entrando, pontual como sempre. Yuri fez seu aceno de cabeça habitual, e eu respondi mentalmente: Boa tarde, Samurai. Preparei o cappuccino sem pensar duas vezes. Mas, dessa vez, acenei para que ele viesse buscar sua bebida enquanto já fazia outro pedido. Ele estava absorto em um novo livro, que não reparou. Então uma criança com a mochila de unicórnios holográficos deu um tapinha em seu ombro e apontou pra mim, sorri para ela e agradeci. Ele veio e me mostrou seu livro que tinha um título em letras pequenas que mal consegui ler: Metafísica
- Conheço esse filósofo! - provoquei, entregando a xícara.
Ele me encarou por um segundo. Balançou a cabeça e deu um riso discreto.
- Muito perspicaz da sua parte. - ele deu um gole em sua bebida e olhou para a fila que surgia atrás dele. - Quer ajuda?
Devo ter feito uma cara muito confusa porque ele simplesmente revirou os olhos e veio para o lado de trás do balcão. Me empurrou delicadamente para o lado e me entregou o post it com o último pedido, respirou fundo e deu um sorriso, virou para o homem de terno que olhava insistentemente para o seu relógio de pulso e disse - Boa tarde, já sabe o que vai pedir?
Confesso que foi inesperado.
- Dois expressos e um latte.
Mas foi útil.
- Machiatto com chantily extra.
Ele repetia o pedido em voz alta.
- Um latte, um café com leite e um mocha.
E depois escrevia o pedido e me passava o post it.
- Três cappuccinos de doce de leite para viagem.
Eu fazia rapidamente.
- Amaretto.
Entregava ao cliente.
- Expresso.
Apontava para fazer o pagamento no caixa com a Dona Alice que me encarava com certa curiosidade.
- Macchiato caramelo e americano.
Próximo.
Com a ajuda dele, todos os clientes eram atendidos rapidamente e a fila logo acabou.Vinte minutos depois e a cafeteria estava mais calma.
- Obrigada, mesmo! - falei para ele, finalmente me sentando, então pisquei duas vezes - seu cappuccino deve estar gelado, vou fazer um para você.
- Não precisa… - disse e ainda mais surpreendente: começou ele mesmo fazer, usando sem nenhuma dificuldade a prensa francesa e a máquina de espresso.
Então serviu duas xícaras e me entregou uma. Brindamos e caímos na risada, então começou a tomar seu cappuccino encostado no balcão. Enquanto eu ainda não conseguia dizer nada.
- Se você quiser o emprego rapaz, ele já é seu - disse dona Alice nos observando.
Ele se virou e agradeceu, um pouco envergonhado.
- Acho que nunca te vi calada por tanto tempo, Zara. - ele se espreguiçou preguiçosamente e deu mais um gole em sua bebida - nas férias de final de ano, sempre trabalhei na cafeteria dos meus avós, no Japão. Minha irmã Sayuri e eu éramos praticamente os baristas oficiais de lá. No início, era um jeito de conseguir um dinheiro para comprar algum mangá, mas acho que depois eu só me acostumei.
Eu sorri, surpresa e impressionada.
- Isso explica muito, Samurai. - ele arqueou a sobrancelha, confuso com o apelido, e eu ri desviando o olhar - desculpa, é meio sem querer. Eu tenho uma mania de apelidar todo mundo na minha cabeça, na verdade isso me ajuda a decorar os pedidos dos clientes, sabe?
Disse apontando pra um post it colado na lateral da máquina de expresso com os apelidos e pedidos habituais de cada um. E entre tantos, lá estava escrito Samurai - cappuccino. Estava prestes a continuar a conversa quando olhei as horas no celular e acabei lendo que meus amigos tinham decidido estudar juntos na biblioteca.
- Muito obrigada mesmo, Yuri! Você não faz ideia como me ajudou hoje, mas preciso ir agora… Meu expediente acabou às quatro horas e tenho uma prova de parasitologia às seis. - Comecei a me apressar e peguei minha bolsa.
- Agora são quatro e dez… Não vai dar tempo de você pegar o ônibus de quatro e meia, quer uma carona? - ele perguntou, ainda casualmente encostado no balcão.
Fiquei um pouco surpresa com a oferta. Era uma boa oferta, sem dúvida. Mas não entendi porque ele estava tão bonzinho comigo hoje. Parecia inusitado, mas naquele momento, a ideia de ganhar alguns minutos era tentadora demais.
- Sério? - perguntei, já decidindo que sim - Obrigada! Eu só preciso passar em casa rapidinho, pegar minhas coisas e tomar um banho rapidinho. Nos encontramos em, no máximo, meia hora em frente à cafeteria?
Ele concordou com um aceno de cabeça, o canto da boca se curvando em um meio sorriso:
- Em meia hora. Gosto de pontualidade. - E piscou para mim.
Sai da cafeteria apressada, agradeci por morar no sótão do prédio da cafeteria, então subi as escadas o mais rápido possível. Joguei meu caderno e canetas da cama para a mochila, depois fui tomar um banho.. Depois de me apressar para me trocar, desci. Encontrei Yuri na frente da cafeteria, ele já com o capacete extra em mãos. E foi aí que me lembrei, eu sabia que ele tinha uma moto, já tinha reparado no capacete algumas vezes. Mas só agora que a ficha caiu.Eu iria andar de moto com ele. Disfarcei a cara de alegria o melhor que pude quando me ofereceu o capacete e esperou enquanto eu o colocava. Sem muita hesitação, subi na moto atrás dele, segurando seu ombro de leve.
- Pronta? — ele perguntou, me lançando um olhar pelo retrovisor, enquanto acelerava. - você não tem medo, não é?
- Pronta… — Segurei firme, sentindo uma onda de adrenalina ao perceber que isso era mais emocionante do que eu imaginava. Mas não respondi se tinha medo ou não, certeza que ele reparou assim que deu a partida como me segurei firme porque consegui sentir seu sorrisinho debochado enquanto perguntava.
O vento batia no rosto. A sensação era boa. Um frio na barriga diferente. A liberdade sobre duas rodas me fez refletir se não deveria aprender a pilotar. Mas na verdade, no meio do caminho pensei se tudo isso era apenas a emoção de andar de moto ou se era por andar de moto com ele.
Yuri era bonito. Eu já tinha confessado para mim mesma desde o primeiro momento. Mas apesar disso, eu não tinha me sentido apaixonada até agora. As conversas eram legais. E nada além disso. Porém, tudo que conseguia pensar agora era no meu coração descompassado. Será?
Em menos tempo do que eu esperava, chegamos à faculdade.
- Definitivamente, você é meu herói! - disse entregando o capacete - vai para casa agora?
- Na verdade, não. Tenho uma aula às seis da tarde também, sou professor substituto aqui… Até mais! - então ele se foi.
Ouvi risadas familiares e um assobio. Era o pessoal do grupo. Raul foi o primeiro a comentar, com um sorrisinho provocador.
- Zara! Você quer nos contar alguma coisa? — Ele fingiu uma expressão impressionada, como se tivesse implorando segredo escondido.
Lili, com um sorriso, balançou a cabeça para mim.
- Achei que você chegou com estilo, Zara! E o melhor é que você ainda chegou a tempo… - e então mais discretamente falou - depois a gente vai conversar sobre isso.
Isra ainda olhava para o caminho a moto de Yuri que diminuía cada vez mais:
- Se ele for tão legal quanto a moto, Zara, você não tem tempo a perder…
***
No outro dia, fiz um esforço consciente para não me sentir estranha perto do Yuri. Não sei ao certo se foi pela ajuda na cafeteria e a carona ou as implicâncias dos meus amigos. Mas me senti tímida. Ainda que não quisesse admitir, sentia uma certa ansiedade esperando ele aparecer na cafeteria.
Até que ele chegou. Cappuccino, mesa de sempre,livro.
— Livro novo? — exclamei, olhando a capa do livro brilhosa e novinha, diferente dos outros que ele geralmente lia — Mas aposto que quem escreveu é gente velha. Não fica pesado, não?
Yuri fechou o livro devagar, apoiando o dedo entre as páginas para não perder o lugar. Bebeu um gole do cappuccino. E só então, com um meio sorriso, começou a falar:
- Pesado é relativo - ele retrucou, e percebi que havia um tom de desafio na voz dele. - Por que a pergunta? E na verdade, esse autor morreu há pouco tempo, quase centenário.
Eu sorri de volta, sentindo que a conversa ia ser boa.
- Porque, às vezes, parece que você lê para complicar ainda mais as coisas. Sabe, tem livros por aí que falam sobre o sentido da vida de um jeito um pouquinho mais... leve?
Ele ergueu uma sobrancelha, como se considerasse a ideia.
- Leveza é um conceito subjetivo, Zara.
Eu suspirei exageradamente e ele revirou os olhos.
Como sempre, ele não respondeu imediatamente. Em vez disso, então me observou por alguns segundos, com um olhar que sugeria estar tentando me decifrar. Como se eu fosse o quebra-cabeça dessa vez.
- E o que você sugere que eu leia? — ele perguntou, com uma calma desafiadora.
- Sei lá... romances? Algo com mais risadas e menos crises existenciais — sugeri, apoiando o cotovelo na cadeira ao lado da mesa dele.
Yuri franziu a testa levemente, mas um canto da boca se curvou num quase-sorriso.
- Quem disse que a crise existencial não pode ter seu charme?
Eu ri, balançando a cabeça.
- Certo. Mas crises existenciais à parte, eu sempre achei que a leitura deveria ajudar a viver, não complicar ainda mais.
- Você quer dizer para ajudar a distrair? - ele corrigiu, e havia um brilho nos olhos dele que dizia “Estou esperando para ver onde você vai com isso.”
Eu me inclinei para frente, em um gesto conspiratório.
- Quem sabe... — comecei, com um tom brincalhão. — Às vezes, uma boa distração pode ser o que nos ajuda a encarar a realidade de frente.
Yuri ficou quieto, o que era típico dele. Então, depois de um momento de contemplação, respondeu:
- Isso é bonito e tudo, mas já considerou que talvez as paixões sejam apenas distrações da realidade?
Revirei os olhos, cruzando os braços. Ele estava claramente tentando me provocar, e eu não ia deixar barato.
- Paixões são o que nos mantêm vivos, Samurai. Sem elas, somos apenas robôs complicando tudo com filosofias. - Respondi rápido. Ele riu, e foi a primeira vez que ouvi um riso genuíno vindo dele. Uma gargalhada e não o sorriso típico debochado e blasé.Existia uma espontaneidade ali dentro daquela fachada séria. Por um instante, achei que tinha vencido, mas ele rapidamente recuperou a compostura.
- Robôs... interessante. Talvez sejam. - Ele parou, como se estivesse refletindo. - Ou talvez sejam o oposto: seres irracionais disfarçados de lógicos.
A conversa avançou rapidamente e eu já me sentia confusa. Sobre o que estavamos falando, mesmo? Eu já não sabia. E então, algo curioso aconteceu: ele começou a me perguntar sobre minhas próprias leituras. Eu nunca teria imaginado que Yuri se interessaria por isso, mas ele parecia genuinamente curioso sobre o que me fascinava. E, sem nem perceber, eu estava falando sobre meu livro favorito da infância e como eu ainda releio acho nas mesmas palavras alguma novidade e aprendizado novo. E então, saindo da ficção, falei sobre minha paixão por biologia e como eu geralmente lia sobre o que estava pesquisando na faculdade: peixes betta.
- Eu pesquiso sobre como funcionam as cores dos peixinhos. Não é algo intuitivo como um peixinho azul e uma baixinha vermelha vão ter peixinhos roxos. Tem bastante genética. Além das cores em si, tem os padrões de cores. Então meu objetivo é colorir o mundo inteiro com peixinhos.
- E são muitos tipos?
- São mais de cinquenta traços genéticos. E já catalogados uns cem genótipos.
- Então você nunca vai terminar sua pesquisa. - ele concluiu, como se fosse algo ruim.
- Exatamente. - sorri - mas isso é bom, eu sempre vou ter algo para fazer e para deixar meu coração quentinho. Sem chance para tédio. Ou para acordar um dia e fim.
- Interessante — ele disse, finalmente. — Então, essa é sua perspectiva.
- Claro — respondi, sem hesitar. — Não tenho pressa para chegar ao fim.
Ele ficou em silêncio, pensativo. E, tive a impressão de que ele estava começando a ver o mundo com uma leveza que não parecia natural para ele. Como se estivesse experimentando algo novo. Naquela mesma tarde, enquanto atendia outro cliente, percebi que Yuri não estava lendo, ele tinha um olhar um pouco perdido pela primeira vez.
***
Grupo de whatsapp: Alpha e os bettas
Integrantes do grupo: Isra, Lili, Raul e Zara.
Raul: “Zara, só não esquece de que tem apresentação de seminário daqui dois dias enquanto ignora nossas perguntas sobre quem era o rapaz da moto do outro dia, ok?”
Lili: “Estamos curiosos… Quem é ele? Onde mora? Do que se alimenta? Como se reproduz?”
Zara: “Vocês dois têm zero fé na minha capacidade de multitarefa. Já falei que é só um amigo… Encarem isso com mais leveza…”
Raul: “Leveza é para quem não consegue pegar mais de 200g no leg press.”
Isra: “Você tem um ponto…”
Lili: “Às vezes manter um diálogo com vocês que é pesado…”
Isra: “Se vocês pararem para pensar, a academia também é um tipo de filosofia: esforço e recompensa.”
Zara: “Nossa, que mistura estranha.”
Raul: “Falando em mistura estranha, Zara, você já assustou ele falando sobre seus peixes?”
Zara: “Ué, o que tem de estranho nisso?”
Lili: “É um pouco inesperado, amiga. É muita paixão envolvida quando você entra nesse assunto…”
Isra: “De fato,viu…Aliás, quando a gente vai conhecer ele, mesmo?”
***
Aos poucos, comecei a perceber que Yuri não era um quebra-cabeça a ser resolvido. Ele era um paradoxo: alguém que encontrava complexidade em tudo, mas que parecia intrigado pela simplicidade que eu tentava trazer para as nossas conversas. E a cada troca mordaz, a cada pequeno desafio, sentia que estava ficando um passo mais próxima de descobrir a verdade sobre o samurai.
Nossas conversas começaram a se tornar parte da minha rotina, algo que eu esperava ansiosamente. Não era mais apenas um diálogo casual de balcão; era um jogo que eu mal podia esperar para jogar. Yuri e eu discutíamos sobre quase tudo: propósito de vida, piadas filosóficas, e, às vezes, temas aleatórios que surgiam do nada, como se estivéssemos em uma competição de absurdos. Mas havia uma coisa que eu ainda não tinha explorado completamente: minha paixão por peixes betta.
Eu sabia que aquilo poderia soar, bem… nerd. Mas, depois de ver que ele parecia realmente ouvir o que eu dizia, resolvi me arriscar. Em um dia de movimento fraco na cafeteria, sentei-me na mesa ao lado dele, onde já havia deixado seu cappuccino. Ele olhou para cima, provavelmente esperando outra provocação, mas ao invés disso, eu perguntei:
— Você já teve um peixe de estimação, Yuri?
Ele franziu a testa, visivelmente pego de surpresa pela pergunta.
— Um peixe? Não… nunca achei que valesse a pena. Mas já tive um cachorro.
Isso, para mim, era quase uma blasfêmia. Eu recostei na cadeira, cruzando os braços de forma dramática.
- E por que não? Eles são, basicamente, as criaturas mais fascinantes da Terra!
Ele colocou o livro de lado, olhando para mim como se eu fosse uma curiosidade científica:
- Criaturas fascinantes? - repetiu, o tom carregado de ceticismo, mas também de algo mais… talvez interesse?
- Sim! - Eu endireitei a postura, pronta para defender minha tese. - Os peixes betta, por exemplo. Eles parecem frágeis, mas são incrivelmente resilientes. E têm personalidades, sabia? Eles podem ser agressivos, territoriais, até mesmo vaidosos… é como observar uma sociedade aquática em miniatura. Ele têm até rituais.
Yuri ainda não parecia convencido, mas eu podia ver que ele estava tentando entender meu entusiasmo. Ele inclinou a cabeça ligeiramente, como sempre fazia quando estava prestes a soltar um comentário crítico.
- Personalidades? — questionou, um sorriso surgindo no canto da boca. - Achei que isso fosse algo exclusivo dos seres humanos.
- Claro que você pensaria assim, Samurai. - revirei os olhos - Acredita tanto na complexidade humana e se esqueceu da simplicidade cativante que é observar peixinhos...
Ele não respondeu de imediato. Estava claro que minhas palavras tinham provocado algo nele, como se estivessem desafiando sua visão de mundo. Eu podia ver o conflito se formando em seus olhos: aceitar ou refutar minha ideia? Para Yuri, cada interação era um debate interno.
— Então... eles realmente têm rituais? — ele perguntou, mas dessa vez, o tom era genuinamente curioso.
Senti uma onda de satisfação por ter quebrado a barreira da indiferença. Eu sorri, animada por finalmente ter sua atenção. Yuri apoiou o cotovelo na mesa e descansou o queixo na mão, ainda me observando com uma intensidade que seria desconcertante para qualquer outra pessoa. Para mim, no entanto, era um sinal de que ele estava começando a ver o que eu via. E não estava assustado.
- É muito legal ver alguém falando do que gosta…
Aquilo me pegou de surpresa. Até os meus amigos achavam um pouco estranho minha fascinação por peixinhos, mas Yuri apenas assentia lentamente, absorvendo minhas palavras.
- Nunca pensei que alguém pudesse descrever peixes com tanta... paixão — ele disse, com um olhar pensativo. — É quase poético.
Eu ri de leve, aliviada por ele não ter me chamado de obcecada ou louca. A gente sempre se prepara para o pior que se surpreende quando não acontece.
- Se reparar, tem muita coisa que só é normal por descaso…
Ele estreitou os olhos, como se estivesse considerando.
- Concordo. Ver através da lógica é esquecer da parte artística.
- Nos seus estudos, é tudo lógica ou tem um lado artístico também? — perguntei, meio provocativa.
Ele sorriu:
- A filosofia é uma arte. Mas, diferente da poesia, ela não se contenta em apenas descrever; ela quer questionar, além de fazer fazer refletir.
***
Grupo de whatsapp: Alphas e os bettas
Integrantes do grupo: Isra, Lili, Raul e Zara.
Lili: “Vocês acham que ter um bichinho de estimação muda a pessoa?”
Raul: “Você está pensando em adotar um gato ou algo assim, Lili?”
Isra: “Aposto em um peixe betta. Inspiração da Zara.”
Lili: “Não é nada disso, curiosos!”
Raul: “Ah, vai… Todos nós sabemos que bichos são a maior prova de paciência e evolução espiritual. Tipo, eu antes de adotar meu cachorro: irresponsável e bagunceiro. Eu agora: responsável e ainda bagunceiro, mas com um cachorro lindo.”
Lili: “Hahaha! Pelo menos você assume.”
Isra: “Eu não acho que muda a pessoa, mas ensina a entender ritmos diferentes. Animais são previsíveis na maior parte do tempo, mas têm nuances. Se você prestar atenção, aprende a respeitar outras formas de ver o mundo.”
Zara: “Wow, Isra, isso foi... profundo. Você teve um pet, Isra?”
Isra: “Muitos. Gato, cachorro até calopsita.”
Raul: “E você, Zara? Acha que muda?”
Zara: “Eu acho que sim. Tipo, os peixes betta são super temperamentais. Eles me ensinaram que, às vezes, é preciso ter um pouco de paciência para entender quando o outro precisa de espaço. Ou então tragédias acontecem se forçarem dois peixinhos a coexistirem num aquário.”
Isra: “Pois é…”
Raul: “E o que aquele rapaz da moto acha disso?”
Zara: “Ele já teve um cachorro de estimação.”
Lili: “Mas a pergunta que quero saber mesmo é: quando a gente vai conhecer ele mesmo?”
Isra: “E se a gente só ir na cafeteria e esperar por ele?”
Raul: “Eu topo! Aposto que ele deve ir lá todo dia.”
Zara: “Nem pensem nisso!”
Lili: “Garotos, um pouco de paciência ou prevejo uma tragédia acontecendo…”
***
Conforme os dias passavam, eu percebia que nossas conversas iam ficando cada vez mais abertas. Yuri, que inicialmente parecia indiferente a tudo que não fosse suas reflexões, começou a compartilhar mais fragmentos sobre sua própria vida e interesses.
Um dia, enquanto estava concentrada em organizar umas notas sobre meu projeto, ouvi a voz de Yuri, grave e calma, me chamando do outro lado do balcão:
— Você parece perdida em pensamentos, Zara. O que te faz ficar assim tão séria?
Levantei o olhar e encontrei seu olhar curioso.
- Estou tentando analisar alguns padrões de cores dos bettas. É difícil explicar. Teve uma linhagem que deu um resultado que não faz sentido.
Ele ficou em silêncio por um momento, como se ponderasse como me ajudaria nisso. Mas por fim, só ficou ali do meu lado. No completo silêncio. Aquilo me pegou de surpresa. E assim, de um jeito despretensioso, eu senti o frio na barriga de novo. Era algo novo. Naquele dia, enquanto entardecia, tive a sensação de que havia algo em Yuri que eu começava a entender. E talvez ele estivesse começando a ver algo em mim também. Não éramos apenas uma garota e um cliente estranho; éramos dois curiosos tentando decifrar o mundo — cada um com sua própria lógica e beleza.
***
Depois de um tempo, comecei a perceber algo estranho: Yuri aparecia na cafeteria mesmo quando não havia nada para fazer ali. No começo, ele se limitava ao seu horário sagrado das três da tarde, e só saía quando terminava seu café. Mas ultimamente, ele estava ficando mais tempo, ou aparecendo em horários aleatórios, até mesmo quando o sol ainda estava subindo no céu. Parecia que meu “Samurai” estava baixando a guarda.
Minha chefe, Dona Alice, uma senhora com um faro infalível para bisbilhotices, começou a notar também. Ela me lançou um olhar de lado um dia desses e disse, enquanto cortava fatias de bolo de cenoura:
— Seu cliente fiel está ficando fiel demais, Zara.
— Não é nada, Dona Alice — retruquei, embora eu soubesse que estava mentindo um pouco até para mim mesma. — Ele gosta de café, só isso.
Ela apenas riu, aquele riso típico de quem já viveu o suficiente para reconhecer algo que ainda é novo para você.
***
Yuri agora não era mais só um cliente; era quase uma peça do mobiliário da cafeteria. Tinha um lugar que era tão dele que às vezes eu sentia um verdadeiro incômodo quando alguém se sentava naquela mesa. Mesmo com seu jeito introspectivo, ele tinha se tornado parte daquele lugar. No início, ele se sentava em silêncio, observando as pessoas e lendo seus livros, mas com o tempo começou a se permitir participar de pequenas trocas de palavras, até mesmo com outros clientes ocasionais. Eu era sua principal “interrupção”, é claro, e me tornei a culpada de arrastar Yuri para conversas que ele, aparentemente, apreciava.
Em um desses dias de movimento lento, estava limpando o balcão quando Yuri chegou mais cedo do que o normal. Ele se aproximou devagar e parou ao meu lado, observando em silêncio o vai e vem da rua do lado de fora. Esperei que ele falasse algo, mas como ele parecia absorto demais em seus pensamentos, não pude evitar em provocá-lo.
- Achei que os samurais tinham horário rígido para os compromissos, — comentei, tentando não sorrir.
Yuri deu um meio sorriso, o que já era uma vitória por si só.
- Até mesmo um samurai precisa de flexibilidade — retrucou, olhando de soslaio para mim.
Estendi um café para ele, sem perguntar o que queria. Já sabia de cor. E quando ele pegou a xícara, notei que estava diferente; como se estivesse menos preocupado com o peso da existência e mais interessado no agora. Naquele instante, senti uma mudança sutil, mas marcante.
- Por que você fica tanto aqui? — perguntei, sem rodeios.
Ele olhou para a xícara, como se estivesse buscando uma resposta ali.
- Talvez... porque é um bom lugar para pensar. — disse, um pouco evasivo. - E as pessoas daqui são interessantes.
Eu sabia que havia mais por trás dessa resposta, mas não pressionei. Pelo menos, não por enquanto.
***
Entre conversas sobre café, peixes, filosofia e carrinhos de chá, fui descobrindo mais sobre Yuri. Ele falava pouco sobre sua vida pessoal, mas deixava escapar pequenos detalhes: o fato de gostar de colecionar livros antigos, de ter uma irmã que morava longe, de já ter praticado kendo (o que, honestamente, me fez rir por dez minutos inteiros). Em troca, eu falava e falava, sobre minha vida, a vida dos outros, compartilhava mais das minhas observações sobre as pessoas que passavam pela cafeteria, sobre como cada cliente parecia ter um ritual próprio que revelava muito sobre eles.
- Sabe, - eu disse uma vez, enquanto Yuri observava as pessoas na cafeteria cheia - quando você só precisa de tomar um café... E aí toma e parece que de repente a vida faz sentido de novo.
Yuri considerou minhas palavras por um segundo:
- Eu me sinto assim como você.
Fiquei em silêncio, um pouco surpresa pela resposta inesperada. Ele não estava brincando, mas também não parecia esperar que eu dissesse algo de volta. Era como se ele estivesse apenas constatando um fato. Decidi deixar o momento passar sem muito alarde, mas suas palavras ficaram comigo.
***
Com o passar do tempo, nossas conversas foram se tornando menos sobre debates e mais sobre presença. Havia um entendimento silencioso de que aquela cafeteria era um ponto de encontro para dois mundos opostos, mas complementares. Um lugar onde as linhas da lógica de Yuri encontravam as minhas curvas de humor e espontaneidade. Não éramos apenas uma atendente e um cliente; éramos dois cúmplices na arte de complicar e simplificar a vida, tudo ao mesmo tempo. E ainda que de forma rápida e inesperada, em tão pouco tempo, eu já o considerava meu melhor amigo.
Leitura agradável com uma pitadinha de curiosidade.
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