Capítulo Um

Translator
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Trabalhar em uma cafeteria tem suas vantagens. O cheiro de café, obviamente. Nada de rotina. Ocasionalmente, ouvir alguma conversa ou fofoca. Mas, de tudo, o que eu mais gostava era observar as pessoas, cada um com seu jeito. Analisar seus gostos, inventar histórias. A moça de moletom da faculdade que sempre pedia mocha para viagem, eu não lembrava o nome dela, mas na minha cabeça, com certeza ela era do curso de fisioterapia. Também tinha um senhorzinho que de vez em quando aparecia e pedia café irlandes. Eu imaginava ele como um detetive, que precisava muito de café (e whisky) para finalizar uma investigação. 

Cada pessoa que entra e sai por aquela porta de vidro, eu tentava observar alguma peculiaridade: se enchia a xícara com mais açúcar, se se encontraria com alguém ou se simplesmente tomaria seu café mexendo no celular. 

Mas com Yuri era diferente. Ele era a única história que eu ainda não tinha conseguido decifrar. Da primeira vez que ele apareceu, chovia muito e ele entrou apressado com um capacete na mão, vestia todo de preto, moletom e jaqueta, calças estranhamente largas, carregava uma mochila de couro nas costas com um banner enrolado, tinha o cabelo preso num coque, mas uma franjinha escapava e caia nos seus olhos. Aliás, olhos puxados. Ele parecia um samurai moderno. 

Ele chegou ao balcão e acenou com a cabeça, olhou o cardápio e falou:

Boa tarde, quero um expresso duplo, sem açúcar.

Ok, vai tomar aqui ou pra viagem? - perguntei.

Vou tomar aqui.

Enquanto fui fazer o seu expresso, ouvi a porta da cafeteria abrindo de novo.

Zara, eu preciso urgentemente de qualquer bebida com álcool. - gritou Fabinho, enquanto vinha até o balcão - Mas a Eloise disse que é uma péssima ideia. Convence ela. Por favor.

Deixa de ser dramático, por favor - Eloise falou suspirando, depois se virou para mim - e aí, amiga?

Ansioso por causa do casamento? - perguntei para o Fabinho, enquanto andava até a mesa e entregava o expresso. - prontinho, senhor!

Nesse instante, os dois se deram conta do cliente e para minha surpresa, eles se conheciam. Fabinho já se sentou e foi conversar, enquanto fui até Eloise.

Um americano e um cappuccino, como sempre? -Para mim um americano, para ele… - ela olhou o cardápio - um espresso martini… Futuro marido feliz, logo, futura esposa feliz, não é?!

Fiz conforme o pedido e entreguei na mesa onde estavam. A cafeteria estava vazia, apenas nós, então quando a Elo disse para eu me sentar um pouquinho e participar da conversa, aceitei. Então foi feita uma breve apresentação pelo Fabinho. O samurai se chamava Yuri Yamazaki, os dois já se conheciam por causa de projetos em comum, mas estudavam juntos há apenas umas semanas, mas já eram melhores amigos. Reparei que nessa parte o Yuri deu um sorrisinho de lado, surpreso. Então Fabinho bebeu em um gole sua bebida e fez uma careta.

Amor, obrigado mesmo pelo café com alguma coisa que desceu queimando, mas a vida é muito curta para tomar um expresso… - então virou para mim -  por favor, Zarinha, faz o meu cappuccino de sempre. Expresso é bebida de quem não sabe aproveitar um chantilly, que olha a vida e nada apetece, não é? Ninguém feliz pede expresso, é só gente estressada e… - por um segundo olhou Yuri tomando o seu expresso duplo e então acrescentou - pode fazer um para ele também, coitado. 


***

 

A partir dali, ele vinha todos os dias, sempre às três da tarde, religiosamente. No começo, achei que fosse coincidência, mas depois percebi que ele era tão pontual quanto o relógio da parede. Quase sempre sozinho, pedia um cappuccino, sentava na mesma mesa e lia. Não conversava muito, se limitava num “boa tarde, Zara”. 

A cafeteria é um tipo de lugar calmo. Com meia dúzia de mesas de madeira clara, uma parede de quadro negro toda rabiscada, luminárias penduradas e plantas demais para o gosto de qualquer decorador minimalista. Mas, para mim, é perfeito. Sempre tem algum cliente para eu “desenhar” mentalmente, adivinhar suas vidas através dos mínimos gestos. Só que Yuri, com sua aparência impecável e seu jeito firme, era um esboço incompleto na minha cabeça. Eu o chamava secretamente de Samurai. Não porque ele tenha cara de quem corta pessoas com uma espada – pelo contrário, acho que ele nem levantaria a voz, mesmo que estivesse irritado –, mas porque ele se move com aquela precisão silenciosa de alguém que sabe para onde está indo. De alguma forma, eu ainda não conseguia imaginar muito mais do que um Samurai.

Eu não sei quase nada sobre ele, além do óbvio: chega aqui com o mesmo casaco escuro, pede o cappuccino e, ao se sentar, tira da mochila um livro de capa desgastada. Sempre com aquele ar distante, pensativo, como se estivesse lendo algo muito mais profundo do que a gente pode ver. Eu tentava imaginar qual era a história dele, mas, todas as vezes, a minha mente batia em uma espécie de parede. 


***


Hoje, a cafeteria estava mortalmente tranquila. Menos de dez clientes. Já eram quase três horas da tarde, quase totalmente vazia por causa da tempestade que caía lá fora, criando uma espécie de neblina nas grandes janelas. As gotas formavam pequenos rios tortuosos no vidro, e eu estava distraída assistindo a dança delas quando vi Yuri entrar. Ele sempre dava um leve aceno de cabeça ao entrar, um cumprimento quase imperceptível, como se dissesse “estou aqui” para o ar.

— Um cappuccino, certo? — perguntei, virando-me antes que ele chegasse ao balcão. Era uma rotina. Mas, hoje, senti um impulso de fazer mais do que a rotina.

Yuri assentiu em silêncio, ajeitando o cabelo que, claro, já estava bagunçado pelo vento. Eu aproveitei para observá-lo de soslaio enquanto preparava o café. Ele tirou o casaco molhado e colocou-o cuidadosamente na cadeira, como se estivesse carregando uma armadura pesada. E então, com o livro já em mãos, se sentou. Mesa de sempre, postura de sempre. Hoje, particularmente, ele parecia ainda mais interessante para mim.

Às vezes eu me pegava imaginando o que ele lia. Eram livros sem título visível, velhos, de capa dura, que pareciam pertencer a uma biblioteca esquecida. Eu brincava mentalmente tentando adivinhar: Kant? Schopenhauer? Ou talvez algum filósofo japonês que eu nunca tenha ouvido falar.

Com o cappuccino pronto, respirei fundo. Normalmente, eu deixaria o pedido sobre a mesa e me afastaria, mas naquele dia, por alguma razão, decidi tentar algo diferente.

— Ei, você sabia que se continuar encarando esse livro com tanta intensidade, ele vai acabar encarando de volta? — comentei, baixando a xícara à sua frente.

Ele desviou o olhar das páginas lentamente, como se eu tivesse interrompido um pensamento profundo, e me encarou por um momento. Seus olhos eram escuros, um pouco sombrios, mas não assustadores. 

— Desculpe? — ele respondeu, confuso.

Eu sorri, tentando quebrar o gelo. Arrependendo instantaneamente de tirar ele da sua leitura e já sentindo meu rosto corar.

— Você está sempre lendo, Yuri... Às vezes fico pensando se eu entenderia alguma coisa desses seus livros.

Ele permaneceu em silêncio, me olhando como se estivesse analisando a minha fala. Não era uma crítica, não era um sarcasmo, apenas uma observação. Nem precisava de resposta. Eu quase podia vê-lo ponderando se valia a pena gastar palavras comigo. Até que, finalmente, ele folheou o livro e leu em voz alta:

— “Os outros eu conheci por acaso. Você, eu encontrei porque era preciso.” — Ele fez uma pausa, esperando a minha reação, e depois continuou: — É Guimarães Rosa.

Por um segundo, fiquei sem palavras. Era uma frase simples, mas tão cheia de significado. Não sabia se ele tinha lido para me provocar ou se era apenas um pensamento ao acaso, mas me pegou de surpresa.

— Uau... — murmurei. — Isso é bonito. E acredite ou não, eu já li este livro na escola - acrescentei - não entendi muita coisa, nem lembro direito. Mas foi lido.

— Não é só filosofia que eu leio — ele disse, fechando o livro agora com um cuidado exagerado, como se selasse um segredo. — A melhor parte de estudar filosofia é que é sobre tudo. Eu posso filosofar sobre qualquer coisa.

Foi nesse momento que percebi que Yuri parecia querer continuar a conversa. Seus olhos me observavam de um jeito único, como se me estudasse. Havia uma curiosidade nele, uma espécie de busca que ia além das páginas de livros complicados. Ele parecia entretido por qualquer conhecimento novo. Seja em um livro ou conversando comigo, como se nada o entediasse. Era como se ele também estivesse tentando entender as pessoas ao seu redor – mesmo que fizesse isso de uma maneira completamente diferente da minha. 

— É um belo trecho — comentei, tentando não parecer impressionada demais. — Combina com seu ar reflexivo e misterioso, Samurai.

Ele continuou em silêncio o tempo suficiente para eu perceber minha gafe. Vez ou outra eu me perdia em pensamentos e acabava chamando algum cliente por algum apelido que só fazia sentido na minha cabeça. Era constrangedor. Mas ele não reagiu de imediato. Yuri voltou os olhos para o livro, abrindo-o de novo na mesma página.

— Samurai... gostei disso. — ele murmurou, mais para si do que para mim, antes de voltar a mergulhar em sua leitura.

Enquanto voltava para o balcão, eu tinha um sorriso nos lábios. Talvez eu não tenha decifrado nem minimamente quem ele era, mas havia, pelo menos, quebrado um pouco daquela barreira silenciosa entre nós. Yuri ainda era um mistério, mas agora, pelo menos, era um mistério que eu tinha a impressão de estar começando a se revelar.

 

 

Comentários

  1. Leitura gostosa, e proporciona curiosidade para saber o desenrolar da cena.

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